domingo, 26 de agosto de 2012

Sobre cotas




Nestes dias têm sido inúmeras as “postações” no facebook e outras redes sociais sobre o julgamento do AP 470 (processo do dito “mensalão”...) no plenário do Supremo Tribunal Federal. Em especial sobre a atuação do “meu primo” Joaquim Benedito Gomes Barbosa. Até ai tudo bem. Querer apenas tecer alguns comentários sobre isso:
Muitos ao postarem seus comentários fazem questão de enfatizar que Joaquim Gomes Barbosa é honrado, ético, inteligente e demais coisa do gênero. Outros, achando que estão arrasando, grifam que ele (Joaquim Gomes Barbosa) não precisou de cotas para chegar ao supremo e coisa e tal. Isso sim merece um contraponto.
Nossa sociedade nutre historicamente atitudes preconceituosas contra negros e demais grupos étnicos minoritários. Muitos, e não são poucos, leem isso e discordam visceralmente. Sem nenhum problema, afinal nossa Carta Magna é bem clara no art. 5, inciso II:- ninguém será obrigado a fazer ou deixar de fazer alguma coisa senão em virtude de lei. Mas ninguém pode esconder a realidade rouca das ruas de nosso país. Os melhores empregos são ocupados por quem? Qual é o padrão de beleza que reina na televisão? Que etnia (os apenados) predomina em nosso sistema prisional?
Será por que os negros e negras não são tão inteligentes quantos os demais? Será que os negros e negros já nascem com o DNA comprometido com más ações? Sinceramente, todos sabem que não. Oportunidade de ascensão social é o que impede que negros e negros estejam em pé de igualdade social com os demais brasileiros. Desde a chegada dos primeiros negros no Brasil (vindos escravizados da África), passando pela escravidão em terra brasilis e a dita alforria de 1888, sempre os negros e negras estiveram em desvantagem social e legal. Ai vem pessoas disserem que as cotas são injustas. Que no Brasil não existe preconceito racial. Brincadeira de mal gosto.“Meu primo” Joaquim Gomes Barbosa está lá no STF por mérito seu. É verdade. Agora reflita: quantos outros negros já tiveram assento naquela corte? Joaquim Gomes Barbosa é o primeiro. E a Corte Suprema existe nestas bandas desde 1808.
Vamos às cotas (tenho que confessar que o morfema cota me trás à memória uma mulher vizinha da minha família no povoado Serra do L, onde nasci. Ela era sempre escalada para ficar na bilheteria das festas recebendo as “cotas” dos participantes). Está na mesa da Presidente/Presidenta Dilma Vana Rousseff, esperando a aprovação ou não da Presidente, o projeto de Lei que garante 50% das vagas das IES públicas para cotas étnicas e sociais.
A revista Veja, como fiel escudeira da classe retrógada deste país, já saiu em defesa dos que são contrários às cotas. Na edição 2.284 (de 29/08/2012) a jornalista Julia Carvalho produziu um artigo que traz em seu bojo o verdadeiro preconceito racial, que é a sua negação. Ali é defendido que uma vez os negros entrem na universidade, está perderá sua qualidade, uma vez que, segundo a jornalista, os negros e negras, por serem oriundos da escola público não têm o mesmo prepara acadêmico que os demais. A própria reportagem cita estudos que mostraram que negros e negras tiveram o mesmo desempenho que os demais alunos ao final do curso. Só que a repórter não dá muito mérito ao estudo, uma vez que, segundo o “sociólogo” Demetrio Magnoli: “As pesquisas que aferem rendimento de cotista são muito discutíveis, porque são feitas pelas próprias instituições interessadas em comprovar que suas políticas funcionam”. Citam apenas uma frase de um sociólogo e não mostram nenhum dado contrário às pesquisas e pronto. É querer brincar com nossa inteligência.  Vale lembrar que as cotas nas universidades foram consideradas legais pelo STF.
Outro dado que merece atenção, é o caminho dado pela reportagem para que o governo garanta o acesso de negros e negros às IES públicas: melhorar a educação básica. Ai todos terão acesso ao ensino superior de qualidade. Vamos fazer as contas, os negros e negras foram libertados em 1888, de lá para cá já são 124 anos. Sabedores que somos que reformas educacionais demoram para surtirem efeito, os negros e negras, lá pela metade do século XXII estarão em pé de igualdade com os demais brasileiros. Tenha paciência.
As cotas não vão resolver do dia pra noite o problema do preconceito racial. Seu propósito é fazer uma reparação histórico-social, ainda que tardia, aos negros e negras que também são filhos e filhos deste solo abençoado por Deus e bonito por natureza.

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