Nestes dias têm sido inúmeras
as “postações” no facebook e outras redes sociais sobre o julgamento do AP 470
(processo do dito “mensalão”...) no plenário do Supremo Tribunal Federal. Em
especial sobre a atuação do “meu primo” Joaquim Benedito Gomes Barbosa. Até ai
tudo bem. Querer apenas tecer alguns comentários sobre isso:
Muitos ao postarem seus
comentários fazem questão de enfatizar que Joaquim Gomes Barbosa é honrado,
ético, inteligente e demais coisa do gênero. Outros, achando que estão arrasando,
grifam que ele (Joaquim Gomes Barbosa) não precisou de cotas para chegar ao supremo e coisa e tal. Isso sim merece
um contraponto.
Nossa sociedade nutre historicamente atitudes preconceituosas
contra negros e demais grupos étnicos minoritários. Muitos, e não são poucos,
leem isso e discordam visceralmente. Sem nenhum problema, afinal nossa Carta
Magna é bem clara no art. 5, inciso II:- ninguém será
obrigado a fazer ou deixar de fazer alguma coisa senão em virtude de lei. Mas ninguém pode
esconder a realidade rouca das ruas de nosso país. Os melhores empregos são
ocupados por quem? Qual é o padrão de beleza que reina na televisão? Que etnia
(os apenados) predomina em nosso sistema prisional?
Será por que os negros e negras não são tão
inteligentes quantos os demais? Será que os negros e negros já nascem com o DNA
comprometido com más ações? Sinceramente, todos sabem que não. Oportunidade de
ascensão social é o que impede que negros e negros estejam em pé de igualdade
social com os demais brasileiros. Desde a chegada dos primeiros negros no
Brasil (vindos escravizados da África), passando pela escravidão em terra brasilis e a dita alforria de
1888, sempre os negros e negras estiveram em desvantagem social e legal. Ai vem
pessoas disserem que as cotas são injustas. Que no Brasil não existe
preconceito racial. Brincadeira de mal gosto.“Meu primo” Joaquim Gomes Barbosa
está lá no STF por mérito seu. É verdade. Agora reflita: quantos outros negros
já tiveram assento naquela corte? Joaquim Gomes Barbosa é o primeiro. E a Corte
Suprema existe nestas bandas desde 1808.
Vamos às cotas (tenho que confessar que o morfema cota me trás à memória uma mulher
vizinha da minha família no povoado Serra do L, onde nasci. Ela era sempre
escalada para ficar na bilheteria das festas recebendo as “cotas” dos
participantes). Está na mesa da Presidente/Presidenta Dilma Vana Rousseff,
esperando a aprovação ou não da Presidente, o projeto de Lei que garante 50%
das vagas das IES públicas para cotas étnicas e sociais.
A revista Veja, como fiel escudeira da classe
retrógada deste país, já saiu em defesa dos que são contrários às cotas. Na edição
2.284 (de 29/08/2012) a jornalista Julia Carvalho produziu um artigo que traz
em seu bojo o verdadeiro preconceito racial, que é a sua negação. Ali é
defendido que uma vez os negros entrem na universidade, está perderá sua
qualidade, uma vez que, segundo a jornalista, os negros e negras, por serem
oriundos da escola público não têm o mesmo prepara acadêmico que os demais. A
própria reportagem cita estudos que mostraram que negros e negras tiveram o
mesmo desempenho que os demais alunos ao final do curso. Só que a repórter não
dá muito mérito ao estudo, uma vez que, segundo o “sociólogo” Demetrio Magnoli:
“As pesquisas que aferem rendimento de
cotista são muito discutíveis, porque são feitas pelas próprias instituições interessadas
em comprovar que suas políticas funcionam”. Citam apenas uma frase de um
sociólogo e não mostram nenhum dado contrário às pesquisas e pronto. É querer
brincar com nossa inteligência. Vale lembrar que as cotas nas
universidades foram consideradas legais pelo STF.
Outro dado que merece atenção, é o caminho dado
pela reportagem para que o governo garanta o acesso de negros e negros às IES
públicas: melhorar a educação básica. Ai todos terão acesso ao ensino superior
de qualidade. Vamos fazer as contas, os negros e negras foram libertados em
1888, de lá para cá já são 124 anos. Sabedores que somos que reformas
educacionais demoram para surtirem efeito, os negros e negras, lá pela metade
do século XXII estarão em pé de igualdade com os demais brasileiros. Tenha
paciência.
As cotas não vão resolver do dia pra noite o
problema do preconceito racial. Seu propósito é fazer uma reparação histórico-social,
ainda que tardia, aos negros e negras que também são filhos e filhos deste solo
abençoado por Deus e bonito por natureza.