“Ninguém pode entrar duas vezes no mesmo rio, pois quando nele se entra
novamente, não se encontra as mesmas águas, e o próprio ser já se modificou. Assim,
tudo é regido pela dialética, a tensão e o revezamento dos opostos. Portanto, o
real é sempre fruto da mudança, ou seja, do combate entre os contrários.”
Fui na esquina aqui de casa e
deparei-me com a “materialização” ou pelo menos entendi o que o Heráclito quis
dizer na frase acima. Explico: fui comprar um cachorro-quente na banquinha que
fica na esquina da minha rua, com a avenida. Lá as luzes dos carros se misturam
com as vozes que fazem seus pedidos de lanche...essa mistura de sons e imagens
levou-me a voltar um pouco no tempo (na verdade, voltei mais de trinta
anos...).
Moro naquele lugar há quase quarenta
anos... já fui comprar cachorro-quente várias vezes (essa banquinha está ali
h[a uns dois anos...) e só hoje percebi que a casa onde a banca fica montada
era a casa do “Seu Nôgo” (ele era pai das musas da minha infância... eram três
meninas que, literalmente, “faziam o trânsito parar” ... a mais nova, que não lembro mais o nome tinha
os olhos verdes... era uma coisa maravilhosa... olhos verdes!!! pense numa
menina linda...e arrogante... nunca mais tive notícias daquelas órbitas
esmeraldas...) a casa do lado ainda vive a família do “Seu Marreca” (um
parceiro de jogo de baralho de meu pai...). Só uma casa permanece com a mesma
moradora: a casa da dona Zelina, a “macumbeira” da rua...mais isso é matéria
pra outro dia...
Fiz um giro de 360 graus nas
casas que povoaram minha infância... A avenida de agora era só uma rua larga e
empoeirada. Onde havia residências agora se tem academia, loja de móveis...Os
vizinhos que ali moravam não mais habitam o lugar. Lembro do Jurandir, do “Índio”,
da Bento, Reginaldo, Edvar e sua forte gagueira (muito mais intensa que a
minha...).
Não existia internet. A diversão
era brincar de “salve latinha”, do “trisca”, “cair no poço”(essa era a minha
preferida... não bebíamos, não usávamos drogas... a mais perto de chegávamos à etilia
era os ponches de vinho barata com frutas doces... era o máximo.
Alguns desses amigos, “aqui e
acolá”, vejo-os pela rua... hoje somos estranhos uns aos outros. O que
aconteceu? Simples não somos mais os mesmos, para o bem ou para o mal...a rua agora
é avenida... eu não sou mais o mesmo...é tudo um misto de alegria e saudade e
também um pouco de tristeza e a moça que atende na banquinha quer saber se o
misto é de carne e frango ou carne e calabresa...
