terça-feira, 27 de março de 2012

Coisas de Brasil...

O nosso país é mesmo um caso sério... Primeiro foi quando a economia do país “subiu” uma posição entre as dez maiores deste “asteróide pequeno que todos chamam de terra”. Agora, a bola da vez é o Eike Batista. O que estão rasgando de seda pela fortuna deste “pobre” do interior das gerais é algo espantoso.

Mas vamos tentar entender (se é que é possível tal façanha...) o que realmente acontece e tem relação conosco, pobres mortais. Um amigo meu que escreve “de vez em quando” na Veja (Cláudio de Moura e Castro), tratando do fabuloso crescimento da economia tupiniquim, propôs enquadrarmos tal acontecimento comparando-o com venda real de estantes de livros.

Fica você a perguntar com toda razão: o que tem haver crescimento econômico com venda de estante de livros. Simples (na lógica dele): se uma nação cresceu economicamente é “ponto pacífico” que seu povo ganhou qualidade de vida plena. E toda e qualquer qualidade de vida passa pela educação e cultura. Se as pessoas estão ganhando mais é indubitável (com gosta de dizer meu amigo Antonio Carlos Caetano) que essas mesmas pessoas têm capital de sobra para comprar “livros à mão cheia...”.

E o Eike? A cada que passa fica mais rico. E quando se é rico num país que tem a sexta economia do “asteróide pequeno que todos chamam de terra” e os profissionais da educação são tratados como estorvo pelos governantes, é claro que se tem motivos de sobre para ser aplaudido de pé.

Creio eu, e creio que posso está redondamente enganado, que vivemos nesta terra que já foi de santa cruz e vera cruz, no fantástico mundo de bob...

terça-feira, 20 de março de 2012

passou pra quê ?

Todos os anos é a mesma coisa: os famosos, o que não quer dizer que sejam competentes, cursinhos pré-vestibulares (agora são pré-enem..) divulgam seu trabalho nos outdoor da cidade. Dizem eles: "somos campeões em aprovações para medicina; Aprovamos mais em direito." Vemos as fisionomias felizes dos novos alunos dos referidos cursos de elite...

Fico a indagar: quem "passa" para Geografia ou Estatística também não tem o direito de ter seu nome e rosto estampado nas propagandas? E quem foi aprovado em Artes ? e em Engenharia Agronômica ?

Até os anos noventa era até compreensível essa super valorização dos cursos ditos clássicos: direito, medicina e até mesmo engenharia civil. Mas de lá para cá já se passaram mais de vinte anos e o mundo mudou radicalmente em todas as áreas do conhecimento. O mercado de trabalho a cada dia busca profissionais que sejam midiáticos "transitem" neste mundo em mutação...

A tecnologia é uma realidade inconteste. Não vi ainda uma só propaganda de cursinho falando que tanto de seus alunos foi aprovado em computação e os demais cursos da área... Isso pra falar só da área da tecnologia. Poderia listar as áreas da educação, comportamento, comunicação...

sábado, 3 de março de 2012

Conselhos de mãe...



Estes dias li um artigo da Lya Luft na Veja. Ela falava, com a maestria que lhe é comum, sobre o fato da vida não permitir erratas. Na sua argumentação ela listou vários eventos que, se fosse possível, poderíamos agir de forma diferente.

Isso leva-me ou me leva (sou horrível com os pronomes oblíquos...) a pensar sobre o que poderia ter feito diferente na vida. Penso, penso, penso de novo e só aparece-me uma coisa: ter a oportunidade de ficar mais próximo do sonho de minha mãe. Explico: Minha querida foi tirada de nossa família há trinta anos (março de 1982). À época eu era uma criança linda e ainda ia “fazer” oito anos... Nas lembranças que tenho dela (Dona Maria de Jesus) o que fica mais latente era o desejo quase obsessivo pelo estudo para nós (minha irmã, eu e meu irmão menor).

Ela era a segunda filha de uma família de doze irmãos no interior do Piauí. Meu avô não tinha muitas “posses”. Possui uns hectares e umas cabecinhas de gado... Dentro da organização do sistema machista não existe espaço para as mulheres estudarem. O único filho de meu avô que estudou foi caçula... Isso incomodava demais minha mãe... O casamento com meu pai se revelou uma porta seu grande sonho: estudar. Tenho uma lembrança dela chegando em casa com umas apostilas do “finado” Mobral...

Seus conselhos eram práticos: dizia ela que mesmo que tivéssemos todo o dinheiro do mundo podia vir um ladrão e levar tudo... Mas se tivéssemos conhecimento, nem se abrissem nossa cabeça ele não seria roubado. Confesso que sempre busquei seguir à risca este conselho (isso explica minha paixão pela Gloriosa Ufpi...) Minha errata seria ter me dedicado mais aos estudos... Ter realmente entrado de cabeça, ter passado mais noite queimando pestanas e ser motivo de orgulho para meus pais (em especial a minha mãe...). Mas ainda não acabou, vou continuar tentando...

quinta-feira, 1 de março de 2012

O livro caindo na alma...

excelente texto de Ricardo Gondin (pastor da Assembléia de Deus Betesta)

Em louvor ao livro

Ricardo Gondim

Meu pai lia obsessivamente. Todas as vezes que surpreendi papai, ao abrir a porta do quarto sem bater, eu o flagrava com um livro na mão. Ele assinava pelo menos duas revistas de notícias semanais e vários pasquins. Comprava folhetos subversivos não sei onde. Trazia, perigosamente, para casa literatura proscrita pelos ditadores. Professor de história, tinha um fascínio enorme pela II Guerra Mundial. Na biblioteca, sobravam tomos, fotografias e artigos sobre o conflito que marcou sua infância. Herdei o vício.

Só há um tipo de consumismo que não me oponho: comprar livros. Todas as vezes que entro em qualquer livraria, gasto mais do que posso – divido em prestações, pago juros altos, mas saio sempre de mãos cheias. Não cogito fazer qualquer viagem de avião sem ler o tempo inteiro. Só há um momento em que odeio o sono, quando o romance me mantém ávido pelo enredo.

Antigamente eu me contentava com textos conceituais, de não-ficção. Mas um dia eu quis aprender a escrever. Logo me disseram que se desejasse melhorar a redação – faltei às aulas de português do Liceu – eu teria de devorar literatura. Hoje, abocanho com igual apetite, biografias, romances, poesias, ficção científica, contos. Os livros grossos já não me metem medo. Sou capaz de perseverar em mil páginas.

Tenho avidez de compensar os anos perdidos em que não abri uma página e faço vigília até alta madrugada. Terminar um livro é fascinante. Só não passo a noite em claro, porque, casado, obedeço ordens superiores que zelam por minha saúde.

O livro faz parte da grande conspiração divina. Quando Deus quis falar à humanidade não fez pirotecnia celestial. Inspirou, tão somente, homens e mulheres a escreverem. Sempre que Moisés subiu a montanha, Javé ordenou que trouxesse um bloco de anotações. Tem razão a frase latina: Scripta manent, verba volant – “O escrito fica, as palavras voam”.

Afirmo sem medo: todo livro é sagrado. O livro, relicário santo, registra memórias, fantasias, angústias, medos, bravuras, grandeza e pecados da humanidade.

Não existe livro impuro, apenas o mal escrito. Literatura é a mais completa de todas as artes. Se o personagem na pintura, escultura ou cinema aparecer contemplando um relvado, ninguém conhecerá com exatidão o que cogita. O bom escritor, contudo, discerne os seus pensamentos. Sabe até o que move a suas entranhas.

Louvado seja o livro. Sem ele não conheceríamos o amor trágico de Tristão e Isolda, de Romeu e Julieta e de Bentinho e Capitu. Jamais celebraríamos a coragem enlouquecida do Quixote. Nunca saberíamos sobre a força do ciúme em Otelo. E nunca partilharíamos da coragem do capitão Acabe.

Jorge Luis Borges afirmou que procurou mais reler do que ler. “Creio que reler é mais importante que ler, embora para reler seja preciso haver lido”.

Já sem enxergar, o brilhante argentino nos legou uma declaração de amor ao livro:

“Continuo fingindo não ser cego; continuo comprando livros, continuo enchendo minha casa de livros. Há poucos dias fui presenteado com uma edição de 1966 (ele escreveu isso em 1978) da Enciclopédia Brockhaus. Senti a presença dessa obra em minha casa; eu a senti como uma espécie de felicidade. Aí estavam os vinte e tantos volumes, com uma letra gótica que não posso ler, com mapas e gravuras que não posso ver; e, no entanto, o livro estava aí. Eu sentia como que uma gravitação amistosa do livro. Penso que o livro é uma das possibilidades de felicidade que temos, nós, os homens”.

Homens e mulheres não vivem só de pão. Nossa alma se alimenta de palavras. No livro não se acha sabedoria pura e simples, nele estão as fontes da beleza, tragédia, alegria, esperança e felicidade.

Deus é escritor e os que querem se achegar a Ele, devem aprender a gostar de ler.

Soli Deo Gloria

fonte: site do Ricardo Gondim

foto: Revista Livro