segunda-feira, 28 de dezembro de 2020

Na esquina de casa...

 

“Ninguém pode entrar duas vezes no mesmo rio, pois quando nele se entra novamente, não se encontra as mesmas águas, e o próprio ser já se modificou. Assim, tudo é regido pela dialética, a tensão e o revezamento dos opostos. Portanto, o real é sempre fruto da mudança, ou seja, do combate entre os contrários.”

Fui na esquina aqui de casa e deparei-me com a “materialização” ou pelo menos entendi o que o Heráclito quis dizer na frase acima. Explico: fui comprar um cachorro-quente na banquinha que fica na esquina da minha rua, com a avenida. Lá as luzes dos carros se misturam com as vozes que fazem seus pedidos de lanche...essa mistura de sons e imagens levou-me a voltar um pouco no tempo (na verdade, voltei mais de trinta anos...).

Moro naquele lugar há quase quarenta anos... já fui comprar cachorro-quente várias vezes (essa banquinha está ali h[a uns dois anos...) e só hoje percebi que a casa onde a banca fica montada era a casa do “Seu Nôgo” (ele era pai das musas da minha infância... eram três meninas que, literalmente, “faziam o trânsito parar” ...  a mais nova, que não lembro mais o nome tinha os olhos verdes... era uma coisa maravilhosa... olhos verdes!!! pense numa menina linda...e arrogante... nunca mais tive notícias daquelas órbitas esmeraldas...) a casa do lado ainda vive a família do “Seu Marreca” (um parceiro de jogo de baralho de meu pai...). Só uma casa permanece com a mesma moradora: a casa da dona Zelina, a “macumbeira” da rua...mais isso é matéria pra outro dia...

Fiz um giro de 360 graus nas casas que povoaram minha infância... A avenida de agora era só uma rua larga e empoeirada. Onde havia residências agora se tem academia, loja de móveis...Os vizinhos que ali moravam não mais habitam o lugar. Lembro do Jurandir, do “Índio”, da Bento, Reginaldo, Edvar e sua forte gagueira (muito mais intensa que a minha...).

Não existia internet. A diversão era brincar de “salve latinha”, do “trisca”, “cair no poço”(essa era a minha preferida... não bebíamos, não usávamos drogas... a mais perto de chegávamos à etilia era os ponches de vinho barata com frutas doces... era o máximo.

Alguns desses amigos, “aqui e acolá”, vejo-os pela rua... hoje somos estranhos uns aos outros. O que aconteceu? Simples não somos mais os mesmos, para o bem ou para o mal...a rua agora é avenida... eu não sou mais o mesmo...é tudo um misto de alegria e saudade e também um pouco de tristeza e a moça que atende na banquinha quer saber se o misto é de carne e frango ou carne e calabresa...

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