Um texto atual e necessário...:
Três histórias, três mulheres: uma visão do feminino na perspectiva
bíblica
Por Quéfren de Moura
Muito provavelmente, você se lembra da história da mulher que cometeu
adultério e foi levada a Jesus – aquela do “quem estiver sem pecado seja o
primeiro a atirar a pedra”. Esse texto emocionante, único na Bíblia, está no
capítulo 8 do Evangelho de João. Quero que você pare alguns instantes e reflita
sobre ele. Quem era aquela mulher?
O que vem à sua mente? Sabemos muito pouco sobre
ela pelo texto. Talvez, a primeira coisa que surja em sua cabeça seja a palavra
“pecadora”. A narrativa bíblica não a chama assim, mas é a forma como muitas
pessoas a definem. O que mais? Ela é trazida por outras pessoas, tem o seu
pecado exposto diante de todos, é apresentada para julgamento e tem a sua vida
colocada em risco de apedrejamento. Mas ela não diz uma única palavra durante
todo esse tempo. Silenciada. Invisível. Na verdade, ela só fala ao final da
narrativa, em resposta a Jesus, o único que se dirige a ela ao longo da
história. Antes disso, não tem o direito de se defender, de se explicar, sequer
de se mostrar arrependida. Parece que tudo o que as pessoas conseguiam ver nela
era o pecado – flagrante pecado! –, não quem ela realmente era. O estigma de
adúltera havia tornado aquela pessoa coisa, objeto nas mãos da multidão.
Agora, quero que você pense em outra mulher
bíblica: a mulher que andava encurvada havia dezoito anos. Descrita em Lucas
13.10-17, ela foi curada e “endireitada” por Jesus.
Duas coisas impressionam nessa história. A primeira
é o tempo que ela permaneceu enferma: dezoito anos. Não dezoito dias, não
dezoito meses… Dezoito anos!
Pare um pouco para refletir sobre essa informação.
Dezoito anos é o tempo que leva um ser humano para nascer, crescer e se tornar
adulto. É o tempo do crescimento físico, intelectual e emocional que culmina na
emancipação. Dezoito anos também é a idade em que, aqui no Brasil, uma pessoa
pode começar a dirigir. Ou seja, é o tempo que leva para um bebê crescer até
ter estatura e competências motoras e mentais para assumir o volante. Pense
agora: onde você estava dezoito anos atrás? Quem você era? Como você era? O que
mudou desde então? Há dezoito anos, entramos no terceiro milênio da nossa era.
Há dezoito anos, ataques terroristas nos Estados Unidos abalaram o mundo. Há
dezoito anos, muitos de nós não eram casados, não tinham filhos, não tinham
terminado a faculdade, talvez nem eram adultos ainda. Alguns sequer haviam
nascido. Quantas coisas mudam em dezoito anos? O quanto de nós permanece igual
dezoito anos depois?
Imagine-se, agora, dezoito anos encurvado, com
dores nas costas, sem poder erguer-se bem. Pense no seu desconforto ao
caminhar, sentar, deitar, levantar, respirar. Visualize-se na posição encurvada
daquela mulher. Muito provavelmente, enxergando apenas pernas e pés. Não olhos.
Não rostos. Não expressões. Pés. Sem poder encarar outro ser humano. Sem poder
se relacionar de igual para igual. Ela ficou assim por longos, intermináveis e
dolorosos dezoito anos. E, assim como a primeira mulher, provavelmente foi
tratada não pelo que ela era de verdade. Sua condição fazia dela alguém
destituído de identidade.
Outra coisa impressionante neste texto é que,
depois do milagre incrível que o Filho de Deus realizou, um chefe religioso
ficou indignado com Jesus. Em vez de se maravilhar com a cura e a libertação –
em tantos sentidos – daquele ser humano, ele adota uma postura de
insensibilidade. Exatamente como os acusadores da história da mulher que seria
apedrejada.
Vamos para uma terceira mulher da Bíblia: a mulher
junto ao poço, de João 4. O que você lembra quando pensa nela? Mulher (de
novo!), estrangeira (de um povo que não se dava bem com os judeus) e… o que
mais? Talvez (muito provavelmente) você esteja pensando: “Aquela que teve cinco
maridos! E o atual não era seu marido.” Pecado. Estigma. Rótulo.
No fim da história da samaritana, não são os
religiosos da época nem os inimigos de Jesus que se aproximam para proferir
alguma palavra dura ou insensível. Os próprios discípulos é que ficam
assombrados ao ver Jesus conversando com a samaritana. Mas, por que tanta
surpresa? A tradição dizia que um rabi (mestre) não deveria falar com uma
mulher. Será que era essa a razão do espanto dos seguidores de Jesus? Ao que
tudo indica, não, visto que Jesus não demonstrou tal atitude em relação às
mulheres em geral. Assim, a causa da surpresa deles foi evidentemente o fato de
a mulher ser samaritana. De novo: eles não eram capazes de ver o coração de um
ser humano sedento, necessitado da água da vida. Eles só viam o exterior.
Jesus e o paradigma da dignidade humana
Olhemos, então, mais atentamente para as atitudes
de Jesus nessas três ocasiões e o tipo de reflexão que ele propõe diante dessas
mulheres: uma apanhada em adultério, outra oprimida por um espírito que a fazia
enferma por dezoito anos e outra estrangeira, que tirava água do poço, sem
conhecer Jesus. O que ele fez? Como se comportou? O que disse? Que lições
ensinou?
Jesus as tratou com dignidade. Ele curou aquelas
mulheres, não apenas de seus males, mas da invisibilidade social a que eram
sujeitas – assim como acontece a muitas mulheres, no mundo todo, ainda hoje.
Ele expressou respeito e sensibilidade pela condição de cada uma, e as viu
assim como Deus nos vê: não como objetos de consumo, nem como seres
desimportantes, ignoráveis, sem valor. Ele não reiterou a opressão que elas
sofriam, mas agiu com amor. Seu comportamento contrasta com a violência –
aberta ou oculta – com que essas mulheres foram, cada uma à sua maneira,
tratadas.
Enquanto a pequena multidão, ávida, prepara suas
pedras, Jesus, paradoxalmente, escreve no chão com a ponta dos dedos. Então,
ele declara livre a mulher que cometeu adultério, ele cura a que esteve enferma
e oferece água viva à estrangeira. Quando assim o faz, Jesus devolve a elas sua
humanidade. Ele mostra a elas (e a cada um de nós que, hoje, lê essas histórias
e se sente desafiado por elas) o valor do ser humano. Ele nos diz que valeu a
pena morrer na cruz do Calvário por nós. Ele restitui nossa identidade e nos
permite andar de cabeça erguida, sem ter vergonha de quem somos. Porque ele nos
mostra, a despeito do que a sociedade nos diz, que as pessoas – e as mulheres,
em especial – são únicas diante dele.
Que não construamos nossa identidade com base no
que a sociedade diz sobre nós – homens ou mulheres –, mas sobre aquilo que
Jesus nos diz que somos. A Bíblia, para surpresa de muitos, já que retrata uma
sociedade patriarcal, na qual as mulheres possuíam um status menor,
está repleta de histórias de mulheres incríveis, cuja memória e legado
reverberam com força até os nossos dias. Que nos apoderemos dessas narrativas,
compreendendo o valor que o nosso Deus dá a todos aqueles que a sociedade
menospreza, estigmatiza, condena e exclui.
• Quéfren de Moura é formada em
História e Comunicação Social pela Universidade de São Paulo. É mestranda no
Programa de Pós-graduação em Letras – Estudos da Tradução da mesma universidade,
onde pesquisa a área de tradução bíblica. Atua como revisora de textos na
Sociedade Bíblica do Brasil e vem se preparando para se tornar consultora de
traduções. Atualmente, apoia projetos de tradução da Bíblia para idiomas
minoritários e para a Língua Brasileira de Sinais.
(disponível no https://www.ultimato.com.br, acesso em 08/07/2019)
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