segunda-feira, 26 de maio de 2014

Eu vi...



Eu vi


Vi um homem chorar porque lhe negaram o direito de usar três letras do alfabeto para fins políticos. Vi uma mulher beber champanha(*) porque lhe deram esse direito negado ao outro.
Vi um homem rasgar o papel em que estavam escritas as três letras, que ele tanto amava. Como já vi amantes rasgarem retratos de suas amadas, na impossibilidade de rasgarem as próprias amadas.
Vi homicídios que não se praticaram mas que foram autênticos homicídios: o gesto no ar, sem consequência, testemunhava a intenção. Vi o poder dos dedos. Mesmo sem puxar o gatilho, mesmo sem gatilho a puxar, eles consumaram a morte em pensamento.
Vi a paixão em todas as suas cores. Envolta em diferentes vestes, adornada de complementos distintos, era o mesmo núcleo desesperado, a carne viva;
E vi danças festejando a derrota do adversário, e cantos e fogos. Vi o sentido ambíguo de toda festa. Há sempre uma antifesta ao lado, que não se faz sentir, e dói para dentro.
A política, vi as impurezas da política recobrindo sua pureza teórica. Ou o contrário... Se ela é jogo, como pode ser pura... Se ela visa o bem geral, por que se nutre de combinações e até de fraudes.
Vi os discursos...
Carlos Drummond de Andrade

(Publicado no Jornal do Brasil, 15/05/80 - Caderno B - Pg. 1) 

O poema acima, de nosso maior poeta, retrata o contexto da fundação do PDT – Partido Democrático Trabalhista. Vivia-se os últimos suspiros da ditadura militar. A organização dos trabalhista, sob o comando de Leonel de Moura Brizola, representava um duro golpe aos mandates de farda... Bem o restante desse enredo já é conhecido, já é história consolidada.

Minha intenção com o presente registro é saudar o 25° aniversário da sigla trabalhista. Não nego a ninguém ou a quem quer que seja minha preferência e filiação política. Sou PDT, Sou 12.

Houve dias é que a filiação partidária é algo que chamava atenção. Hoje, nesses dias pré-copa, é algo muito complicado. Para muitos o grosso da mídia é apolítico. Eu prefiro chamar de porra-louca, os sem-causa de coisa nenhuma, os acéfalos da razão... Mas eles representam bem o que se passa debaixo do sol desde lado do equador...


Fico a pensar até onde vamos chegar (ou afundar..). 

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